PETRO__AS, CADÊ O BR?
- DOM DROME

- 21 de ago.
- 5 min de leitura
O Brasil não vendeu apenas postos de gasolina.
A venda da BR Distribuidora ajuda a entender o projeto que quase chegou à própria Petrobras.
Quando se fala em privatização da Petrobras, é fácil imaginar uma única operação: alguém comprando a empresa, trocando a placa na porta e assumindo o controle.
Mas uma empresa do tamanho da Petrobras também pode ser desmontada aos poucos.
Um campo de petróleo aqui.
Um gasoduto ali.
Uma refinaria.
Uma subsidiária.
Uma participação acionária.
Até que aquilo que antes formava uma cadeia integrada passe a existir em pedaços, cada um respondendo aos interesses de seus novos proprietários.
Foi esse processo que ganhou velocidade durante o governo Jair Bolsonaro.
Segundo levantamento do Dieese citado pelo Brasil de Fato, entre 2013 e agosto de 2022 a Petrobras vendeu 94 ativos. Nada menos que 63 dessas vendas ocorreram entre janeiro de 2019 e agosto de 2022. Foram negociados campos de petróleo, terminais, gasodutos, termelétricas, refinarias e outros ativos.
Mas poucas operações simbolizam tão bem essa mudança quanto a BR Distribuidora.
Do poço ao posto
A Petrobras não nasceu apenas para retirar petróleo do fundo do mar.
Ao longo de décadas, o Brasil construiu uma companhia capaz de participar de diferentes etapas da cadeia do petróleo: exploração, produção, transporte, refino e distribuição.
Essa integração tem importância econômica evidente.
Quem controla apenas o petróleo controla uma parte do negócio.
Quem participa da cadeia inteira possui instrumentos muito maiores para planejar investimentos, abastecimento e estratégia energética.
E era justamente no final dessa cadeia que estava a BR Distribuidora.
A empresa levava os combustíveis até milhares de postos espalhados pelo território nacional. Em outras palavras, era uma das pontes entre o petróleo produzido pela Petrobras e o tanque do automóvel do brasileiro.
Essa ponte foi vendida. Soberania? "É melhor perguntar no posto Ipiranga."

Primeiro, perde-se o controle. Depois, vende-se o restante.
O processo não começou no governo Bolsonaro. Em 2017, ainda no governo Michel Temer, a Petrobras realizou a abertura de capital da BR Distribuidora e vendeu 28,75% de suas ações.
Mas o passo decisivo aconteceu em 2019.
Naquele ano, a Petrobras realizou nova oferta de ações e reduziu sua participação na distribuidora para 37,5%. Na prática, perdeu o controle da companhia.
A operação movimentou aproximadamente R$ 9,6 bilhões.
Em 2021, a Petrobras vendeu as ações que ainda possuía e saiu completamente da sociedade.
Terminava assim uma relação construída durante décadas entre a Petrobras e sua distribuidora.
A BR tornou-se Vibra Energia. E a Petrobras saiu do posto.
Não era apenas uma rede de postos
Esse é o ponto que frequentemente desaparece quando o debate sobre privatizações é reduzido ao preço obtido pela venda.
A discussão não é simplesmente se alguém pagou R$ 5 bilhões, R$ 10 bilhões ou R$ 20 bilhões por determinado ativo.
A pergunta anterior deveria ser:
Por que o Brasil construiu esse ativo?
A BR Distribuidora não existia por acaso.
Ela fazia parte de uma estrutura na qual uma empresa controlada pelo Estado brasileiro podia produzir petróleo, refiná-lo e participar da distribuição dos derivados.
Ao vender a distribuidora, o país não vendeu apenas postos de gasolina.
Vendeu uma parte da cadeia.
É como possuir uma fazenda, produzir o trigo, fabricar a farinha e, depois de décadas construindo uma rede de padarias, decidir que o melhor negócio é vender as padarias.
Você continua produzindo.
Mas abriu mão da última porta antes do consumidor.
Petrobras em xeque.
O projeto de privatização não terminava na BR.
Durante o governo Bolsonaro também avançaram vendas de outros ativos da Petrobras, incluindo refinarias.
Em dezembro de 2021, por exemplo, a Refinaria Landulpho Alves, na Bahia, deixou de pertencer à Petrobras e passou ao controle privado.
Paralelamente, o governo Bolsonaro começou a discutir algo ainda maior: a privatização da própria Petrobras.
Em 2022, o Ministério de Minas e Energia solicitou a inclusão da companhia em estudos relacionados ao Programa de Parcerias de Investimentos.
Paulo Guedes defendia publicamente a privatização.
Bolsonaro também manifestou diversas vezes o desejo de se desfazer da empresa.
A Petrobras inteira não chegou a ser privatizada.
Mas a possibilidade deixou de ser apenas uma discussão abstrata e entrou oficialmente no horizonte político do governo.
Petrobras é mais do que uma empresa de petróleo.
É perfeitamente legítimo discutir eficiência, corrupção, governança e interferência política dentro de uma estatal.
A Petrobras, inclusive, oferece exemplos históricos suficientes para que todos esses temas sejam debatidos com seriedade.
Mas existe uma diferença entre corrigir uma empresa e vender uma empresa.
E existe uma diferença ainda maior quando essa empresa atua em um setor estratégico.
Petróleo não é apenas mercadoria. É energia.
Move carros, caminhões, ônibus, aviões, máquinas agrícolas e parte significativa da indústria.
O preço do diesel aparece no frete.
O frete aparece no supermercado.
O combustível atravessa silenciosamente quase toda a economia.
Por isso as maiores potências do planeta tratam energia como questão estratégica.
Não é necessário transformar a Petrobras em instituição sagrada para perceber isso.
Basta olhar o mapa.
O paradoxo brasileiro.
O Brasil passou décadas tentando alcançar uma posição rara: possuir grandes reservas, tecnologia própria para exploração em águas profundas, capacidade de produção, refinarias, infraestrutura logística e uma grande distribuidora.
Depois de construir essa cadeia, começou a vendê-la em partes.
É aqui que a discussão deixa de ser simplesmente ideológica.
Uma empresa privada tem uma obrigação fundamental com seus acionistas: gerar retorno.
O Estado possui obrigações diferentes.
Precisa pensar também em segurança energética, abastecimento, desenvolvimento industrial, geração de empregos, investimento de longo prazo e soberania.
Às vezes esses interesses coincidem.
Às vezes não.
É justamente por isso que determinados ativos são considerados estratégicos.
O posto já foi vendido.
A privatização integral da Petrobras pretendida por setores do governo Bolsonaro não aconteceu. Mas seria um erro concluir que, portanto, nada aconteceu.
A Petrobras que chegou ao final daquele governo já não possuía diversos ativos que tinha alguns anos antes.
A BR Distribuidora talvez seja o símbolo mais fácil de compreender.
Durante décadas, o Brasil construiu uma empresa capaz de retirar petróleo de milhares de metros abaixo do oceano e acompanhar parte desse produto até chegar ao consumidor.
Hoje, a Petrobras continua encontrando petróleo.
Continua produzindo petróleo.
Continua sendo uma das maiores empresas brasileiras.
Mas aquela distribuidora não pertence mais a ela.
A placa mudou.
O controle mudou.
O lucro daquela etapa da cadeia mudou de destino.
E talvez a melhor pergunta sobre a privatização da Petrobras não seja apenas quanto o Brasil poderia receber para vendê-la.
Talvez seja outra: quanto custaria ao Brasil construir outra Petrobras depois de vendê-la?
“Quero privatizar tudo, a começar pela Petrobras”
- Romeu Zema aka Chico Bento
Enquanto alguns querem privatizar a Petrobras... "O pai tá on."
"BRENT COM LOUVOR"
“Eu perguntei à Magda: ‘É Brent?’
Ela disse: ‘Não, é mais do que Brent, é Brent com louvor’”, disse Lula.
*Magda Chambriard, presidente da Petrobras.

Lula visita a sonda NS-42, da Petrobras, na Margem Equatorial - Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert
“Eu sujei a mão do pré-sal e sujei a mão desse [...]. Esse parecia que já tava refinado, de tão leve que é. Nós temos a chance de ter um petróleo muito chique. Muito chique e de muita qualidade para abençoar o futuro do filho de vocês.”- LULA
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