O JOGO & O TETO DE GASTOS.
- DOM DROME

- 23 de ago.
- 3 min de leitura
PAÍS x CASA.
Uma pessoa física precisa tomar cuidado com dívidas porque tem renda limitada e uma vida limitada.
Uma pequena empresa também.
Mas uma grande indústria pensa diferente. Investe hoje em uma fábrica que talvez leve dez ou vinte anos para se pagar. E um país deveria pensar em cinquenta, cem anos.
O erro do capitalismo liberal é comparar o planejamento financeiro de uma país com o de uma casa.
NENHUM TIME É CAMPEÃO SEM INVESTIMENTOS.

Pense no futebol.
Flamengo e Palmeiras possuem dívidas e obrigações financeiras.
Isso não significa necessariamente que estejam quebrados.
O Palmeiras, por exemplo, terminou 2025 com mais de R$ 1,1 bilhão em dívida total, ao mesmo tempo em que registrou patrimônio social de R$ 569 milhões e resultado positivo de R$ 292 milhões.
Por quê?
Porque dívida e investimento não são a mesma coisa que insolvência.
Um clube pode gastar R$ 100 milhões contratando jogadores e, com um time melhor, disputar títulos, vender mais camisas, aumentar patrocínios, premiações, bilheteria e valor de marca.
O Real Madrid CF levou essa lógica a outro patamar.
A reforma do Santiago Bernabéu já acumula € 1,4 bilhão em investimentos, financiados em grande parte por dívida. O clube não fez isso porque estava quebrado. Fez para criar um estádio capaz de gerar mais receitas durante décadas. Em 2025/26, o Real Madrid alcançou receita recorde de € 1,22 bilhão.
A dívida financiou a evolução.

QUEM VAI CONSTRUIR O TREM QUE SE PAGA EM 30 ANOS?
Esse é o problema de acreditar que o mercado fará tudo sozinho.
Uma empresa privada pode investir bilhões numa ferrovia, numa usina ou numa infraestrutura gigantesca. Mas só fará isso se enxergar risco e retorno compatíveis.
E existem investimentos essenciais para um país cujo retorno financeiro direto pode levar décadas, enquanto o retorno social começa muito antes.
Um trem de alta velocidade pode reduzir trânsito, integrar cidades, aumentar produtividade, criar empregos, valorizar regiões e transformar cadeias econômicas inteiras.
Talvez nenhuma dessas coisas apareça integralmente no balanço da empresa que construiu o trem. Mas aparece no balanço do país. É justamente aí que entra o Estado.

O “ESTADO MÍNIMO” SEMPRE TEM UMA PORTA VIP.
Durante anos, venderam o teto de gastos como se o Brasil fosse uma família que estourou o cartão de crédito.
Só que o próprio Estado que supostamente deveria “sair da economia” continua financiando setores privados considerados estratégicos.
O BNDES disponibilizou R$ 70 bilhões para o Plano Safra 2025/26.
Desse montante, R$ 26,3 bilhões em recursos equalizáveis foram destinados a médios e grandes produtores da agricultura empresarial.
Ou seja: quando o Estado financia hospital, ferrovia, universidade ou infraestrutura, chamam de gasto.
Quando oferece bilhões em crédito para setores produtivos, chamam de investimento, incentivo e desenvolvimento.
A discussão séria, portanto, nunca deveria ser simplesmente “Estado ou mercado”.
Deveria ser: onde o Estado deve investir, quanto deve investir e qual retorno econômico e social esse investimento produzirá?
Esse investimento todo favorece a população ou aumenta o lucro da exportação?

A DÍVIDA NÃO É O PROBLEMA. A PERGUNTA É: O QUE ELA CONSTRUIU?
A extrema direita liberal encontrou um discurso eleitoral extremamente eficiente: pega a dívida de um país, transforma aquele número gigantesco em uma dívida doméstica e pergunta:
“Você faria isso na sua casa?”
Claro que não.
Mas minha casa também não constrói portos, universidades, metrôs, hidrelétricas, hospitais, ferrovias e redes nacionais de transmissão elétrica.
Um país não morre aos 80 anos. Não precisa quitar a hipoteca antes de se aposentar.
Um país atravessa gerações.
Dívida ruim é aquela que cresce sem aumentar a capacidade futura da economia.
Dívida usada para ampliar infraestrutura, tecnologia, educação, energia e produtividade pode deixar para a próxima geração não apenas uma obrigação, mas também o patrimônio que ajuda a pagá-la.
UM ESTADO FORTE NÃO QUEBRA. ELE ACELERA.
O mercado é extraordinário para competir, inovar e descobrir oportunidades.
Mas não foi desenhado para resolver sozinho todas as necessidades de uma sociedade.
Há momentos em que alguém precisa fazer o primeiro investimento, assumir o risco que ninguém quer assumir e construir a infraestrutura sobre a qual depois milhares de empresas privadas irão lucrar.
Esse alguém é o Estado.
O investimento público constrói a estrada.
A iniciativa privada abre negócios ao redor dela.
Os trabalhadores recebem salários.
O consumo aumenta.
As empresas vendem.
A arrecadação cresce.
E a roda começa a girar.
Estado forte não significa Estado gastador.
Significa um Estado capaz de investir no futuro quando o mercado só consegue enxergar o próximo balanço trimestral.
Porque um país que tem medo de investir para não aumentar sua dívida pode conseguir uma façanha extraordinária: fechar as contas de hoje e perder o futuro.




