SOLDADOS + ESCRAVIZADOS = SOLDADOS DO TRÁFICO.
- O RAIO NEGRO

- 9 de abr.
- 2 min de leitura
Atualizado: 27 de mai.
FATO:
Foi o excesso do capitão que começou a confusão.
Isso não é apologia, é história e sociologia.
O Brasil costuma tratar a violência como se ela tivesse surgido do nada.
Como se homens armados aparecessem espontaneamente nos morros.
Como se o crime fosse uma “falha moral individual”.
Como se a história não tivesse deixado cicatrizes abertas.
Mas basta olhar para trás.
Depois da abolição, milhões de pessoas foram libertadas apenas no papel.
Sem terra.
Sem escola.
Sem indenização.
Sem emprego.
Sem moradia.
Sem inclusão.
A escravidão acabou.
O abandono começou.
Poucos anos depois, soldados que lutaram na Guerra de Canudos chegaram ao Rio de Janeiro esperando receber moradia do Estado.
Não receberam.
Subiram um morro improvisadamente.
Construíram barracos.
Criaram a primeira favela.
O nome do morro vinha justamente da planta “favela”, encontrada em Canudos.
E ali começou uma história que o Brasil fingiu não ver.
Ex-escravizados abandonados.
Sertanejos marginalizados.
Pobres empurrados para longe da cidade formal.
Sem saneamento.
Sem presença do Estado.
Sem oportunidade.
Sem futuro.
Décadas se passaram.
O Estado continuou ausente.
Mas alguém ocupou esse espaço.
O crime.
O tráfico não nasceu apenas da droga.
Nasceu do vazio.
Nasceu onde faltou escola. Onde faltou emprego. Onde faltou dignidade. Onde o único caminho de pertencimento passou a ser o grupo armado local.
Existe uma linha histórica desconfortável ligando Canudos, a pós-abolição e as facções modernas.
Não porque sejam a mesma coisa. Mas porque nasceram da mesma ferida: abandono estrutural.
Os “soldados” mudaram de uniforme.
Antes: sertanejos pobres, ex-escravizados, homens esquecidos pelo Estado.
Hoje: jovens de comunidades, igualmente pobres, igualmente esquecidos, carregando um fuzil ao invés de uma enxada.
Quando o Estado falha durante gerações, outras estruturas ocupam seu lugar.
O tráfico, muitas vezes, funciona como Estado paralelo porque o Estado oficial nunca chegou de verdade.
Isso não justifica o crime. Mas explica a origem do problema.
E sem entender a origem, o Brasil continuará tratando consequência como se fosse causa.
A violência que explode hoje não nasceu ontem.
Ela é um eco histórico.
Um país que abandonou Canudos.
Abandonou os libertos.
Abandonou as favelas.
E agora se assusta com o que cresceu nesse abandono.



